terça-feira, 27 de março de 2012
VINCENT LEONARD PRICE JR.
FONTE:http://pt.wikipedia.org/wiki/Vincent_Price (GOOGLE)
1- QUEM É VICENT PRICE
Vincent Leonard Price Jr. (St. Louis, 27 de maio de 1911 — Los Angeles, 25 de outubro de 1993) foi um ator norte-americano.
Nascido no Missouri, Price veio de uma família rica, cercada por um ambiente cultural acima dos padrões e envolta em tradições antigas à moda europeia.
Começou no teatro, depois passou ao cinema onde ficou mundialmente conhecido por contracenar em filmes de suspense e terror, o que lhe rendeu a alcunha de Mestre do Macabro ("Master of the macabre", no original)[1]. A sua trajetória é longa e inclui clássicos como:
"Meu Reino por um Amor" (1939),
"A Canção de Bernadette" (1943),
"Laura" (1944),
"As Chaves do Reino" (1944),
"Amar foi Minha Ruína" (1945),
"O Solar de Dragonwyck" (1946),
"Choque" (1946),
"Noite Eterna" (1947),
"Os Três Mosqueteiros" (1948),
"Bagdad" (1959),
"Champagne for Caesar" (1950),
"Seu Tipo de Mulher" (1951),
"Museu de Cera" (1953),
"Os Dez Mandamentos" (1956),
"No Silêncio de uma Cidade" (1956) dirigido por Fritz Lang,
"A História da Humanidade" (1957),
"A Mosca da Cabeça Branca" (1958),
"O Monstro de Mil Olhos" (1959),
"Força Diabólica" (1959),
"A Mansão do Morcego" (1959),
"A Casa dos Maus Espíritos" (1959),
"Nefertiti, a Rainha do Nilo" (1961),
"Robur, o Conquistador do Mundo" (1961),
"A Torre de Londres" (1962),
"No Domínio do Terror" (também chamado de Contos de Terror) (1963),
"O Castelo do Terror" (também chamado de O Castelo Assombrado) (1963)",
"Diário de um Louco" (1963),
"Mortos que Matam" (também chamado de The Last Man on Earth) (1964),
"Farça Trágica" (também conhecido como The Comedy of Terrors) (1964),
"Monstros da Cidade Submarina" (1965),
"O Caçador de Bruxas" (1968),
"O Ataúde do Morto-Vivo" (1969)
Vincent Price também estrelou o criativo ciclo de adaptações de obras de Edgar Allan Poe dirigidas por Roger Corman, na década de 1960:
"O Solar Maldito" (aka A Queda da Casa de Usher) (1960),
"Mansão do Terror" (1961),
"Muralhas do Pavor" (1962),
"O Corvo" (1963),
"A Máscara da Morte Vermelha" (também conhecido como A Máscara Mortal) (1964),
"O Túmulo Sinistro" (também chamado de A Tumba de Ligeia) (1964)
Nota:O castelo assombrado (1963) também é citado como do ciclo das obras de Poe devido ao título retirado de um de seus poemas mas o roteiro é baseado em H. P. Lovecraft.
Nos anos 70, porém, surgiram mais algumas obras que tornaram sua filmografia ainda mais rica, como
"O Uivo da Bruxa" (1970),
"Grite, Grite Outra Vez!" (1970),
"O Abominável Dr. Phibes" (1971),
"A Câmara de Horrores do Abominável Dr. Phibes" (1972),
"As Sete Máscaras da Morte" (também conhecido como Teatro da Morte) (1973),
"A Casa do Terror" (1974), (ao lado do "cavalheiro do terror" Peter Cushing)
Price faz deliciosas e divertidas brincadeiras com a própria carreira, numa autoparódia clássica. Em 1975, participou do disco Welcome To My Nightmare, do cantor Alice Cooper, que sempre foi fã declarado do lendário ator. Vincent Price gravou uma narração para a faixa The Black Widow. Participou do especial de TV de Alice Cooper, que foi inspirado nas letras do disco.
Vincent Price em cena (1942).
Na década de 1980 destacou-se na "Mansão da Meia-Noite" (também chamado de A Casa das Sombras) (1983), que reúne, num só fôlego, Peter Cushing, John Carradine, Christopher Lee e Vincent Price. Este filme, repleto de clichês e situações previsíveis, na verdade foi uma espécie de homenagem a esses atores que são a própria história do género horror no cinema, e foi o único que os uniu numa mesma produção.
Nos anos 80, ficou conhecido do grande público por conta de uma participação muito especial no mundo da música: Uma delas, ao fechar com brilhantismo um dos grandes clássicos do sempre "Rei do Pop" Michael Jackson, "Thriller".
Participou também como narrador de vários filmes, seriados e curtas, como
The Devil's Triangle (documentário) (1974),
Faerie Tale Theatre (1982),
Vincent (1982),
Os Treze Fantasmas do Scooby-Doo (1985) e Tiny Toon Adventures (1991).
No curta mencionada Vincent, realizada por Tim Burton, Vincent Price é o narrador da história de seis minutos, sobre um rapaz chamado Vincent que quer ser como Vincent Price. Como se pode constatar, esta curta em stop motion é uma evidente homenagem ao consagrado actor. Já na série em desenho Os 13 Fantasmas de Scooby-Doo, o seu personagem, Vincent Van Ghoul, uma paródia do próprio Vincent Price, aparece em todos os episódios da série ajudando Scooby-Doo e toda a turma a recapturar 13 monstros lendários.
Em 1984 participou em dois episódios da série O Teatro dos Contos de Fada de Shelley Duvall: "Branca de Neve e os Sete Anões", como narrador e ator, interpretando o espelho mágico; e "O Menino que Saiu de Casa para Saber o que era o Medo", como narrador.
Em 1986 fez a voz do vilão Professor Ratagão, no filme de animação de longa-metragem O Ratinho Detetive, da Disney. O ator também interpreta algumas das canções do filme, compostas por ele próprio.
Outro grande papel em sua carreira foi: o do vilão Cabeça de Ovo/Egghead; no seriado sessentista do Batman.
Seu último filme foi Edward Mãos de Tesoura (1990), no qual contracenou com Johnny Depp.
Três anos depois, já com 82 anos, veio a falecer de cancro do pulmão.
Ainda em vida, o ator foi laureado com o prêmio especial dedicado ao conjunto de sua obra e a sua contribuição ao cinema de Terror e Fantasia em dois dos mais importantes festivais do gênero: o Academy of Science Fiction, Fantasy & Horror Films, em 1986, e o Fantasporto, em 1984.
O ator possui duas estrelas na Calçada da Fama, em Hollywood; uma dedicada aos seus trabalhos na TV (At 6501 Hollywood Blvd.), e a outra aos seus trabalhos no cinema (At 6201 Hollywood Blvd.).
O lendário trio de blues rock norte-americano ZZ Top escreveu uma canção sobre Vincent Price no álbum "Rhythmeen": Vincent Price Blues. A banda de horror punk norte-americana Misfits escreveu uma canção sobre o ator e um de seus filmes no álbum "Static Age": Return of the Fly. Outra banda de horror punk norte-americana, o Wednesday 13, homenageou o ator com uma canção no álbum "Transylvania 90210": The Ghost of Vincent Price. Os filmes "The Abominable Dr. Phibes" (1971) e "House of Wax" (1953) de Vincent Price inspiraram o nome da banda de rock psicodélico inglesa Dr. Phibes and the house of wax equations.
ANNABEL LEE (POEMA - EDGAR ALLAN POE)
Foi há muitos e muitos anos já,
Num reino de ao pé do mar.
Como sabeis todos, vivia lá
Aquela que eu soube amar;
E vivia sem outro pensamento
Que amar-me e eu a adorar.
Eu era criança e ela era criança,
Neste reino ao pé do mar;
Mas o nosso amor era mais que amor -
O meu e o dela a amar;
Um amor que os anjos do céu vieram
a ambos nós invejar.
E foi esta a razão por que, há muitos anos,
Neste reino ao pé do mar,
Um vento saiu duma nuvem, gelando
A linda que eu soube amar;
E o seu parente fidalgo veio
De longe a me a tirar,
Para a fechar num sepulcro
Neste reino ao pé do mar.
E os anjos, menos felizes no céu,
Ainda a nos invejar...
Sim, foi essa a razão (como sabem todos,
Neste reino ao pé do mar)
Que o vento saiu da nuvem de noite
Gelando e matando a que eu soube amar.
Mas o nosso amor era mais que o amor
De muitos mais velhos a amar,
De muitos de mais meditar,
E nem os anjos do céu lá em cima,
Nem demônios debaixo do mar
Poderão separar a minha alma da alma
Da linda que eu soube amar.
Porque os luares tristonhos só me trazem sonhos
Da linda que eu soube amar;
E as estrelas nos ares só me lembram olhares
Da linda que eu soube amar;
E assim 'stou deitado toda a noite ao lado
Do meu anjo, meu anjo, meu sonho e meu fado,
No sepulcro ao pé do mar,
Ao pé do murmúrio do mar.
REVELAÇÃO MESMERIANA (EDGAR ALLAN POE)
(Relativo ao “mesmerismo”, doutrina do médico alemão Frederico Antônio Mesmer (1734-
1805. Ele julgava haver descoberto no magnetismo animal a terapêutica para todas as
doenças e, sobre sua pretendida descoberta, escreveu vários livros. N.T.)
Embora ainda se possa cercar de dúvida a análise racional do magnetismo, seus
espantosos resultados são agora quase universalmente admitidos. E os que, dentre todos,
duvidam, são simples descrentes profissionais, casta inútil e desacreditada. Não pode
haver mais completa perda de tempo que a tentativa de provar, nos dias atuais, que o
homem, pelo mero exercício da vontade, pode impressionar seu semelhante a ponto de
conduzi-lo a uma condição anormal cujos fenômenos muito estreitamente se assemelham
aos da morte, ou pelo menos se assemelham mais a eles do que os fenômenos de
qualquer outra condição normal de que tenhamos conhecimento, provar que, enquanto
em tal estado, a pessoa assim impressionada só emprega com esforço, e mesmo assim
fracamente, os órgão externos dos sentidos, embora perceba, com percepção agudamente
refinada e através de canais supostamente desconhecidos, questões além do alcance dos
órgãos físicos; provar que, além disso, suas faculdades intelectuais são maravilhosamente
intensificadas e revigoradas; provar que suas simpatias para com a pessoa que assim age
sobre ela são profundas; e, finalmente, provar que sua suscetibilidade à ação magnética
aumenta com a freqüência desta, ao mesmo tempo que em idêntica proporção, os
fenômenos característicos obtidos se tornam mais extensos e mais pronunciados.
Digo que seria superfluidade demonstrar tais coisas - que são as leis do magnetismo em
seu aspecto geral. E não irei infligir hoje a meus leitores tão desnecessária demonstração.
Sou impelido, arrostando mesmo todo um mundo de preconceitos, a pormenorizar sem
comentários, a notabilíssima essência de um colóquio ocorrido mim e um magnetizado.
Por muito tempo eu me acostumara a magnetizar a pessoa em apreço (o Sr. Vankirk) e
sobrevieram a suscetibilidade aguda e a intensidade da percepção magnética, como de
hábito. Durante numerosos meses viera sofrendo de tísica bem caracterizada, de cujos
efeitos mais angustiantes fora aliviado graças a minhas manipulações; e, na noite de
quarta-feira, quinze do corrente, fui chamado à sua cabeceira.
O enfermo sofria aguda dor na região do coração e respirava com grande dificuldade,
tendo todos os sintomas comuns da asma. Em espasmos semelhantes achara sempre
alívio com a aplicação de mostarda nos centros nervosos, mas naquela noite isso tinha
sido tentado em vão. Ao entrar em seu quarto o doente saudou-me com carinhoso sorriso
e, embora evidentemente sofresse grandes dores corporais, parecia estar mentalmente
sem qualquer perturbação .
- Mandei chamá-lo hoje - disse-me - não tanto para dar-me um alívio ao corpo como para
satisfazer-me relativamente a certas impressões psíquicas que, nos últimos tempos,
causaram-me grande ansiedade e surpresa. Não preciso dizer-lhe quanto sou cético a
respeito da imortalidade da alma. Não posso negar que sempre existiu nessa própria
alma, que andei negando, um como que vago sentimento de sua realidade. Mas esse
indeciso sentimento em tempo algum se ampliou à convicção. Nada havia de comum
entre minha razão e ele. Todas as tentativas de uma análise lógica resultaram na verdade,
em deixar-me mais cético do que antes. Aconselharam-me a estudar Cousin. Estudei-o
em suas próprias obras bem como nas de seus ecos europeus e americanos. Esteve em
minhas mãos, por exemplo, o Charles Elwood do Sr. Browson. Li-o com profunda
atenção. Achei-o inteiramente lógico; apenas as partes que não eram simplesmente
lógicas eram, infelizmente, os argumentos iniciais do incrédulo herói do livro. Em seu
resumo pareceu-me evidente que o raciocinador não tivera êxito sequer em convencer-se
a si mesmo. Seu fim claramente esquecera o início, como o governo de Trínculo. Em
suma, não tardei em perceber que, se um homem deve ser intelectualmente convencido
da própria imortalidade, nunca será convencido pela mera abstração que por tanto tempo
foi moda entre os moralistas da Inglaterra, da França e da Alemanha. As abstrações
podem divertir a mente e exercitá-la, mas não tomam posse dela. Neste mundo terreno
pelo menos, a filosofia…estou persuadido, apelará sempre em vão para que contemplemos
as qualidades como coisas.
- A vontade pode concordar; a alma, o intelecto, nunca. Repito, pois, que só senti um
tanto, e nunca acreditei intelectualmente. Mas, há pouco, houve certo aguçamento dessa
sensação até ao ponto de quase parecer a aquiescência da razão, tanto que eu achava
difícil distinguir entre ambos. Creio-me, pois, capaz de atribuir esse efeito à influência
magnética. Não posso explicar melhor o que penso senão pela hipótese de que a
intensificação magnética me capacita a perceber um encadeamento de raciocínios que,
em minha existência anormal, me convence, mas que, em plena concordância com o
fenômeno magnético, não se estende, a não ser por meio de seu efeito, à minha condição
normal. Estando magnetizado, o raciocínio e a sua conclusão, a causa e seu efeito, estão
juntamente presentes. No meu estado natural, desaparecendo a causa, só o efeito
permanece e talvez só parcialmente.
Tais considerações levaram-me a pensar que certos bons resultados podem ser a
conseqüência de uma série de bem orientadas perguntas, a mim propostas enquanto
magnetizado. Muitas vezes você observou o profundo auto conhecimento demonstrado
pelo magnetizado, a extensa consciência que ele tem de todos os pontos relativos à
condição magnética em si; ora, desse auto conhecimento podem ser deduzidas idéias
suficientes para a organização adequada de um catecismo.
Consenti naturalmente, em fazer tal experiência. Poucos passes levaram o Sr. Vankirk ao
sono mesmérico. Sua respiração tornou-se imediatamente mais fácil e ele pareceu não
sofrer qualquer incômodo físico. Seguiu-se, então, a conversação abaixo (V., no diálogo
representa o paciente, e P. representa minha pessoa)
P - Está dormindo?
V- Sim… não ; preferiria dormir mais profundamente.
P- ( depois de poucos passes mais.) Está dormindo agora?
V- Sim.
P - Como pensa que terminará sua enfermidade atual?
V- (Depois de longa hesitação e falando como que com esforço.)Vou morrer.
P- A idéia de morte o aflige?
V - (Muito rapidamente.) Não.
P- Agrada-lhe essa perspectiva?
V - Se eu estivesse acordado gostaria de morrer, mas agora isso não importa. A condição
magnética está bastante perto da morte para me satisfazer.
P. - Desejaria que se explicasse, Sr. Vankirk.
V. - Desejo fazê-lo, mas isso requer esforço maior do que aquele de que sou capaz. O
senhor não interrogou adequadamente.
P. -Que perguntarei então?
V. - Deve começar pelo começo.
P. - O começo? Mas onde é o começo?
V. - O começo, como sabe, é Deus. (Isto foi dito numa voz baixa, flutuante, e com
todos os sinais da mais profunda veneração.)
P. - Que é Deus, então?
V. - (Hesitando durante alguns minutos.) Não posso
P. - Deus não é espírito?
V. - Enquanto estava desperto, eu sabia o que queria dizer com a palavra "espírito",
mas agora parece-me apenas uma palavra tal, por exemplo, como verdade, beleza: quero
dizer, uma qualidade.
P. - Não é Deus imaterial?
V. - Não há imaterialidade; é uma simples palavra. O que não é matéria não é
absolutamente, a menos que as qualidades coisas.
P. - Deus, então, é material?
V. - Não. (Esta resposta me espantou bastante.)
P - Então que é ele?
V -(Depois de longa pausa, murmurando.) Vejo... mas é uma coisa difícil de dizer.
(Outra pausa longa.) Ele não é espírito, porque existe. Nem é matéria, tal como você
entende. Mas há gradações da matéria de que o homem não conhece nada, a mais densa
impelindo a mais sutil, a mais sutil invadindo a mais densa. A atmosfera, por exemplo,
movimenta o princípio elétrico, ao passo que o princípio elétrico penetra a atmosfera.
Estas gradações da matéria aumentam em raridade ou sutileza até chegarmos a uma
matéria imparticulada - sem partículas -, indivisível - una - e aqui a lei de impulsão e de
penetração é modificada. A matéria suprema ou não particulada não somente penetra
todas as coisas, mas movimenta todas as coisas, e assim é todas as coisas em si mesma.
Esta matéria é Deus. Aquilo que os homens tentam personificar na palavra "pensamento"
é esta matéria em movimento.
P. - Os metafísicos sustentam que toda ação é redutível a movimento e pensamento,
e que este é a origem daquele.
V. - Sim. E agora vejo a confusão de idéias. O movimento é a ação do espírito e não
do pensamento. A matéria imparticulada ou Deus, em estado de repouso (tanto quanto
podemos concebê-lo ) é o que os homens chamam espírito. E o poder do auto movimento
(equivalente com efeito à volição humana) é, na matéria imparticulada, o resultado de sua
unidade e de sua onipotência; como não sei, e agora vejo claramente que jamais o saberei.
Mas a matéria imparticulada, posta em movimento por uma lei ou qualidade existente
dentro de si mesma, é pensamento.
P. Poderá dar-me idéia mais precisa do que chama você matéria imparticulada?
V. As matérias de que o homem tem conhecimento escapam aos sentidos gradativamente.
Temos, por exemplo, um metal, um pedaço de madeira, uma gota de água, a atmosfera,
um gás, o calórico, a eletricidade, o éter luminoso. Ora, chamamos todas essas coisas
matérias e abrangemos toda a matéria numa definição geral; mas a despeito disto, não
pode haver duas idéias mais essencialmente distintas do que a que ligamos a um metal e
a que ligamos ao éter luminoso. Quando alcançamos este último, sentimos uma
inclinação quase irresistível a classificá-lo como espírito ou como o nada. A única
consideração que nos retém é nossa concepção de sua constituição atômica, e aqui
mesmo temos necessidade de buscar auxilio na nossa noção de um átomo, como algo que
possui, com pequenez infinita, solidez, palpabilidade, peso. Suprimamos a idéia do éter
como uma entidade ou, pelo menos, como matéria. À falta de melhor palavra podemos
denominá-lo espírito. Dê agora um passo para além do éter luminoso. Conceba uma
matéria como muito mais rarefeita do que o éter, assim como o éter é muito mais rarefeito
do que o metal, e chegaremos imediatamente (a despeito de todos os dogmas da escola) a
uma única massa, uma matéria imparticulada. Pois, embora possamos admitir infinita
pequenez nos próprios átomos, a infinidade da pequenez nos espaços entre eles é um
absurdo. Haverá um ponto, haverá um grau de rarefação no qual, se os átomos são
suficientemente numerosos, os interespaços devem desaparecer e a massa unificar-se de
todo. Mas, sendo agora posta de lado a consideração da constituição atômica, a natureza
da massa resvala inevitavelmente para aquilo que concebemos como espírito. E claro, que
ela é tão matéria ainda quanto antes. A verdade é que não se pode conceber o espírito
sem que seja possível imaginar o que não é. Quando nos lisonjeamos por haver formado
essa concepção, apenas iludimos a nossa inteligência com a consideração da matéria
infinitamente rarefeita.
P. - Parece-me haver uma insuperável objeção à idéia de unidade absoluta, e ela é a da
bem pouca resistência sofrida pelos corpos celestes nas suas revoluções pelo espaço,
resistência agora verificada, é verdade, como existente em certo grau, mas que é, não
obstante, tão leve a ponto de ter sido completamente desdenhada pela sagacidade do
próprio Newton. Sabemos que a resistência dos corpos está principalmente com a sua
densidade. A absoluta unificação é a absoluta densidade. Onde não há interespaços não
pode haver passagem. Um éter absolutamente denso oporia um obstáculo infinitamente
mais eficaz à marcha de um astro do que o faria um éter de diamante ou de ferro.
V. - Sua objeção é respondida com uma facilidade que está quase na razão da sua
aparente irresponsabilidade. Quanto à marcha de um astro , não faz diferença se o astro
passa através do éter ou se o éter através dele. Não há erro astronômico mais inexplicável
do que o que relaciona o conhecido retardamento dos cometas com a idéia de sua
passagem através de um éter; porque, por mais rarefeito que se suponha esse éter, oporia
ele obstáculo a qualquer revolução sideral em um período bem mais breve do que tem
sido admitido por aqueles astrônomos que têm tentado tratar pela rama um ponto que
eles acham impossível compreender. O retardamento realmente experimentado é, por
outro lado, quase igual àquele que pode resultar da fricção do éter na sua passagem
instantânea através do orbe. No primeiro caso, a força retardadora é momentânea e
completa dentro de si mesma; no outro, é infinitamente crescente.
P. - Mas, em tudo isso, nesta identificação da simples matéria como Deus, não haverá
algo de irreverência? (Fui obrigado a repetir essa pergunta antes que o magnetizado
compreendesse plenamente o que eu queria dizer.)
V. - Pode dizer por que a matéria seria menos respeitada do que o pensamento? Mas você
esquece que a matéria de que falo é, a todos os respeitos, o verdadeiro "pensamento" ou
"espírito" das escolas, no que se refere às suas altas capacidades, e é, além disso a
"matéria" dessas escolas ao mesmo tempo. Deus com todos os poderem atribuídos ao
espírito não é senão a perfeição da matéria.
P. - Você afirma então que a matéria imparticulada em movimento é pensamento?
V. - Em geral, esse movimento é o pensamento universal da mente universal. Esse
pensamento cria. Todas as coisas criadas são apenas os pensamentos de Deus.
P. - Você diz "em geral".
V. - Sim. A mente universal é Deus. Para as novas individualidades a matéria é
necessária.
P. - Mas você agora fala de "espírito" e "matéria", como fazem os metafísicos.
V. - Sim, para evitar confusão . Quando eu digo espírito, significa a matéria imparticulada
ou suprema; por matéria, entendo todas as outras espécies.
P. - Você dizia que "para novas individualidades a matéria é necessária".
V. - Sim, pois o espírito, existindo incorporeamente, é simplesmente Deus. Para criar
seres individuais pensantes foi necessário encarnar porções do espírito divino. Por isso o
homem é individualizado. Desvestido do invólucro corpóreo seria Deus. Ora, o movimento
particular das porções encarnadas da matéria imparticulada é o pensamento do homem,
assim como o movimento do todo é o de Deus.
P. - Diz você que desvestido do corpo o homem seria Deus? -
V. - (Depois de muita hesitação.) Eu não podia ter dito isso. É um absurdo.
P. - (Consultando minhas notas.) Você disse que "desvestido do invólucro corpóreo o
homem seria Deus".
V. - Isto é verdade. O homem, assim despojado seria Deus, seria desindividualizado.
Mas ele nunca pode ser assim despojado - pelo menos nunca será - a menos que
devêssemos imaginar uma ação de Deus voltando sobre si mesma, uma ação fútil e sem
objetivo. O homem é uma criatura. As criaturas são pensamentos de Deus. E é da
natureza do pensamento ser irrevogável.
P.- Não compreendo. Você diz que o homem nunca se despojará do corpo?
V. - Digo que ele nunca estará sem corpo.
P. - Explique-se.
V. - Há dois corpos: o rudimentar e o completo, correspondendo às duas condições da
lagarta e da borboleta. O que chamamos "morte" é apenas a dolorosa metamorfose. Nossa
atual encarnação é progressiva, preparatória, temporária. A futura é perfeita, final,
imortal. A vida derradeira é o fim supremo.
P. - Mas nós temos conhecimento palpável da metamorfose da lagarta.
V. - "Nós", certamente, mas não a lagarta. A matéria de que nosso corpo rudimentar é
composta está ao alcance dos órgãos rudimentares que estão adaptados à matéria de que
é formado o corpo rudimentar, mas não à de que é composto o corpo derradeiro. O corpo
derradeiro escapa assim aos nossos sentidos rudimentares e percebemos apenas o casulo
que abandona, ao morrer, a forma interior, e não essa própria forma interior; mas esta
forma interior, bem como o casulo, é apreciável por aqueles que já adquiriram a vida
derradeira.
P. - Você disse muitas vezes que o estado magnético se assemelha muito de perto à
morte. Como é isso?
V. - Quando digo que ele se assemelha à morte, quero dizer que se parece com a vida
derradeira, pois quando estou no sono magnético os sentidos de minha vida rudimentar
ficam suspensos e percebo as coisas externas diretamente, sem órgãos, por um meio que
empregarei na vida derradeira e inorgânica.
P.- Inorgânica?
V.- Sim. Os órgãos são aparelhos pelos quais o indivíduo é posto em relação sensível com
certas categorias e formas da matéria, com exclusão de outras categorias e formas. Os
órgãos do homem estão adaptados à sua condição rudimentar e a ela somente; sua
condição última, sendo inorgânica, é de compreensão ilimitada em todos os pontos,
exceto um: a natureza da vontade de Deus. Isto é, matéria imparticulada. Você pode ter
uma idéia distinta do corpo derradeiro concebendo-o como sendo totalmente cérebro.
"Ele" não é isso; mas uma concepção dessa natureza aproximará você de uma
compreensão do que ele "é". Um corpo luminoso comunica vibração ao éter luminoso. As
vibrações geram outras semelhantes na retina; estas, por sua vez, comunicam outras
semelhantes ao nervo ótico; o nervo leva outras semelhantes ao cérebro; o cérebro
também outras iguais à matéria imparticulada que o penetra. O movimento desta última
é pensamento, do qual a percepção é a primeira vibração. Este é o modo pelo qual o
pensamento da vida rudimentar se comunica com o mundo exterior e este mundo exterior
é limitado, para a vida rudimentar, pelas reações de seus órgãos.
Mas, na vida derradeira e inorgânica, o mundo exterior comunica-se com o corpo inteiro
(que é de uma substância afim da do cérebro como já disse), sem nenhuma outra
intervenção que não a de um éter infinitamente mais rarefeito, do que mesmo o éter
luminífero e com esse éter, em uníssono com ele, todo o corpo vibra, pondo em
movimento a matéria imparticulada que o penetra. É à ausência de órgãos reativos,
contudo, que devemos atribuir a quase ilimitada percepção da vida derradeira. Para os
seres rudimentares os órgãos são as gaiolas necessárias para encerrá-los até que estejam
emplumados.
P. - Você fala de seres rudimentares. Há outros seres rudimentares e pensantes além do
homem?
V. - A conglomeração numerosa de matéria dispersa em nebulosas, planetas, sóis e
outros corpos que nem são nebulosa, nem planetas, tem como único fim suprir o
pabulam para a reação dos órgãos de uma infinidade de seres rudimentares. Sem a
necessidade do rudimentar, anterior à vida derradeira, não teria havido corpos tais como
esses. Cada um deles é ocupado por uma distinta variedade de criaturas orgânicas,
rudimentares e pensantes. Em todas, os órgãos variam com os característicos do
habitáculo. Na morte ou metamorfose, estas criaturas, gozando da vida derradeira da
imortalidade - e conhecedoras de todos os segredos, menos o único, operam todas as
coisas e se movem por toda a parte por simples ato de vontade. Habitam, não as estrelas,
que para nós parecem as únicas coisas tangíveis e para conveniência, cegamente cremos
que o espaço foi criado, mas o próprio espaço, esse infinito cuja imensidão
verdadeiramente substantiva absorve as sombras estelares, apagando-as como não
entidades da visão dos anjos.
P. - Você diz que "sem a necessidade da vida rudimentar” não teria havido estrelas. Mas
qual a razão dessa necessidade?
V. - Na vida inorgânica, bem como geralmente na matéria inorgânica, nada há que impeça
a ação de uma lei simples e única: a Divina Vontade. Com o fim de criar um empecilho, a
vida orgânica e a matéria (complexas, substanciais e oneradas por leis ) foram criadas.
P. - Mais ainda, que necessidade havia de criar esse empecilho?
V. - O resultado da lei inviolada é perfeição, justiça, felicidade negativa. O resultado da lei
violada é imperfeição, injustiça, dor positiva. Por meio dos empecilhos produzidos pelo
número, complexidade e substancialidade das leis da vida orgânica e da matéria, a
violação da lei se torna, até certo ponto, praticável. Esta dor, que na vida inorgânica é
impossível, torna-se possível na orgânica.
P. - Mas em vista de que resultado bom se torna possível a dor?
V. - Todas as coisas são boas ou más por comparação . Uma análise suficiente mostrará
que o prazer, em todos os casos é apenas o contraste da dor. Prazer positivo é mera idéia.
Para ser feliz até certo ponto, devemos ter sofrido na mesma proporção. Jamais sofrer
equivaleria a não ter jamais sido feliz. Mas está demonstrado que na vida inorgânica a
dor não pode existir; daí a necessidade da dor para a vida orgânica. A dor da vida
primitiva da terra é a única base da felicidade da derradeira vida no Céu.
P. - Contudo, ainda há uma de suas expressões que não acho possibilidade de
compreender: "a imensidão verdadeiramente substantiva do infinito".
V. - É provavelmente, porque não tem a concepção suficientemente genérica do próprio
termo substância. Não devemos olhá-la como uma qualidade, mas como um sentimento:
é a percepção, nos seres pensantes, da adaptação da matéria à organização deles. Há
muitas coisas sobre a Terra que seriam nada para os habitantes de Vênus; muitas coisas
visíveis e tangíveis em Vênus que não poderíamos ser levados a apreciar como
absolutamente existentes. Mas para os seres inorgânicos - para os anjos - o todo da
matéria imparticulada é substância, isto é, o todo do que chamamos "espaço" é para eles
a mais verdadeira substancialidade; os astros, entretanto, do ponto de vista de sua
materialidade, escapam ao sentido angélico, justamente na mesma proporção em que a
matéria imparticulada, do ponto de vista de sua imaterialidade, escapa ao sentido
orgânico.
Ao pronunciar o magnetizado estas últimas palavras em voz fraca, notei-lhe na fisionomia
singular expressão que me alarmou um tanto e induziu-me a despertá-lo imediatamente.
Logo que fiz isto, com um brilhante sorriso a iluminar todas as suas feições caiu para trás
no travesseiro e expirou. Notei que, menos de um minuto depois seu cadáver tinha toda a
rígida imobilidade da pedra. Sua fronte estava fria como gelo. Assim, geralmente, só se
mostraria depois de longa pressão da mão de Azrael. Ter-se-ia, realmente, o magnetizado,
na última parte de sua dissertação, dirigido a mim lá do fundo das regiões das sombras?
O GATO PRETO (EDGAR ALLAN POE)
Não espero nem peço que se dê crédito à história sumamente extraordinária e, no entanto, bastante doméstica que vou narrar. Louco seria eu se esperasse tal coisa, tratando-se de um caso que os meus próprios sentidos se negam a aceitar. Não obstante, não estou louco e, com toda a certeza, não sonho. Mas amanhã posso morrer e, por isso, gostaria, hoje, de aliviar o meu espírito. Meu propósito imediato é apresentar ao mundo, clara e sucintamente, mas sem comentários, uma série de simples acontecimentos domésticos. Devido a suas conseqüências, tais acontecimentos me aterrorizaram, torturaram e destruíram.
No entanto, não tentarei esclarecê-los. Em mim, quase não produziram outra coisa senão horror — mas, em muitas pessoas, talvez lhes pareçam menos terríveis que grotesco. Talvez, mais tarde, haja alguma inteligência que reduza o meu fantasma a algo comum — uma inteligência mais serena, mais lógica e muito menos excitável do que, a minha, que perceba, nas circunstâncias a que me refiro com terror, nada mais do que uma sucessão comum de causas e efeitos muito naturais.
Desde a infância, tornaram-se patentes a docilidade e o sentido humano de meu caráter. A ternura de meu coração era tão evidente, que me tomava alvo dos gracejos de meus companheiros. Gostava, especialmente, de animais, e meus pais me permitiam possuir grande variedade deles. Passava com eles quase todo o meu tempo, e jamais me sentia tão feliz como quando lhes dava de comer ou os acariciava. Com os anos, aumentou esta peculiaridade de meu caráter e, quando me tomei adulto, fiz dela uma das minhas principais fontes de prazer. Aos que já sentiram afeto por um cão fiel e sagaz, não preciso dar-me ao trabalho de explicar a natureza ou a intensidade da satisfação que se pode ter com isso. Há algo, no amor desinteressado, e capaz de sacrifícios, de um animal, que toca diretamente o coração daqueles que tiveram ocasiões freqüentes de comprovar a amizade mesquinha e a frágil fidelidade de um simples homem.
Casei cedo, e tive a sorte de encontrar em minha mulher disposição semelhante à minha. Notando o meu amor pelos animais domésticos, não perdia a oportunidade de arranjar as espécies mais agradáveis de bichos. Tínhamos pássaros, peixes dourados, um cão, coelhos, um macaquinho e um gato.
Este último era um animal extraordinariamente grande e belo, todo negro e de espantosa sagacidade. Ao referir-se à sua inteligência, minha mulher, que, no íntimo de seu coração, era um tanto supersticiosa, fazia freqüentes alusões à antiga crença popular de que todos os gatos pretos são feiticeiras disfarçadas. Não que ela se referisse seriamente a isso: menciono o fato apenas porque aconteceu lembrar-me disso neste momento.
Pluto — assim se chamava o gato — era o meu preferido, com o qual eu mais me distraía. Só eu o alimentava, e ele me seguia sempre pela casa. Tinha dificuldade, mesmo, em impedir que me acompanhasse pela rua.
Nossa amizade durou, desse modo, vários anos, durante os quais não só o meu caráter como o meu temperamento — enrubesço ao confessá-lo — sofreram, devido ao demônio da intemperança, uma modificação radical para pior. Tomava-me, dia a dia, mais taciturno, mais irritadiço, mais indiferente aos sentimentos dos outros. Sofria ao empregar linguagem desabrida ao dirigir-me à minha mulher. No fim, cheguei mesmo a tratá-la com violência. Meus animais, certamente, sentiam a mudança operada em meu caráter. Não apenas não lhes dava atenção alguma, como, ainda, os maltratava. Quanto a Pluto, porém, ainda despertava em mim consideração suficiente que me impedia de maltratá-lo, ao passo que não sentia escrúpulo algum em maltratar os coelhos, o macaco e mesmo o cão, quando, por acaso ou afeto, cruzavam em meu caminho. Meu mal, porém, ia tomando conta de mim — que outro mal pode se comparar ao álcool? — e, no fim, até Pluto, que começava agora a envelhecer e, por conseguinte, se tomara um tanto rabugento, até mesmo Pluto começou a sentir os efeitos de meu mau humor.
Certa noite, ao voltar a casa, muito embriagado, de uma de minhas andanças pela cidade, tive a impressão de que o gato evitava a minha presença. Apanhei-o, e ele, assustado ante a minha violência, me feriu a mão, levemente, com os dentes. Uma fúria demoníaca apoderou-se, instantaneamente, de mim. Já não sabia mais o que estava fazendo. Dir-se-ia que, súbito, minha alma abandonara o corpo, e uma perversidade mais do que diabólica, causada pela genebra, fez vibrar todas as fibras de meu ser.Tirei do bolso um canivete, abri-o, agarrei o pobre animal pela garganta e, friamente, arranquei de sua órbita um dos olhos! Enrubesço, estremeço, abraso-me de vergonha, ao referir-me, aqui, a essa abominável atrocidade.
Quando, com a chegada da manhã, voltei à razão — dissipados já os vapores de minha orgia noturna — , experimentei, pelo crime que praticara, um sentimento que era um misto de horror e remorso; mas não passou de um sentimento superficial e equívoco, pois minha alma permaneceu impassível. Mergulhei novamente em excessos, afogando logo no vinho a lembrança do que acontecera.
Entrementes, o gato se restabeleceu, lentamente. A órbita do olho perdido apresentava, é certo, um aspecto horrendo, mas não parecia mais sofrer qualquer dor. Passeava pela casa como de costume, mas, como bem se poderia esperar, fugia, tomado de extremo terror, à minha aproximação. Restava-me ainda o bastante de meu antigo coração para que, a princípio, sofresse com aquela evidente aversão por parte de um animal que, antes, me amara tanto. Mas esse sentimento logo se transformou em irritação. E, então, como para perder-me final e irremissivelmente, surgiu o espírito da perversidade. Desse espírito, a filosofia não toma conhecimento. Não obstante, tão certo como existe minha alma, creio que a perversidade é um dos impulsos primitivos do coração humano - uma das faculdades, ou sentimentos primários, que dirigem o caráter do homem. Quem não se viu, centenas de vezes, a cometer ações vis ou estúpidas, pela única razão de que sabia que não devia cometê-las? Acaso não sentimos uma inclinação constante mesmo quando estamos no melhor do nosso juízo, para violar aquilo que é lei, simplesmente porque a compreendemos como tal? Esse espírito de perversidade, digo eu, foi a causa de minha queda final. O vivo e insondável desejo da alma de atormentar-se a si mesma, de violentar sua própria natureza, de fazer o mal pelo próprio mal, foi o que me levou a continuar e, afinal, a levar a cabo o suplício que infligira ao inofensivo animal. Uma manhã, a sangue frio, meti-lhe um nó corredio em torno do pescoço e enforquei-o no galho de uma árvore. Fi-lo com os olhos cheios de lágrimas, com o coração transbordante do mais amargo remorso. Enforquei-o porque sabia que ele me amara, e porque reconhecia que não me dera motivo algum para que me voltasse contra ele. Enforquei-o porque sabia que estava cometendo um pecado — um pecado mortal que comprometia a minha alma imortal, afastando-a, se é que isso era possível, da misericórdia infinita de um Deus infinitamente misericordioso e infinitamente terrível.
Na noite do dia em que foi cometida essa ação tão cruel, fui despertado pelo grito de "fogo!". As cortinas de minha cama estavam em chamas. Toda a casa ardia. Foi com grande dificuldade que minha mulher, uma criada e eu conseguimos escapar do incêndio. A destruição foi completa. Todos os meus bens terrenos foram tragados pelo fogo, e, desde então, me entreguei ao desespero.
Não pretendo estabelecer relação alguma entre causa e efeito - entre o desastre e a atrocidade por mim cometida. Mas estou descrevendo uma seqüência de fatos, e não desejo omitir nenhum dos elos dessa cadeia de acontecimentos. No dia seguinte ao do incêndio, visitei as ruínas. As paredes, com exceção de uma apenas, tinham desmoronado. Essa única exceção era constituída por um fino tabique interior, situado no meio da casa, junto ao qual se achava a cabeceira de minha cama. O reboco havia, aí, em grande parte, resistido à ação do fogo — coisa que atribuí ao fato de ter sido ele construído recentemente. Densa multidão se reunira em torno dessa parede, e muitas pessoas examinavam, com particular atenção e minuciosidade, uma parte dela, As palavras "estranho!", "singular!", bem como outras expressões semelhantes, despertaram-me a curiosidade. Aproximei-me e vi, como se gravada em baixo-relevo sobre a superfície branca, a figura de um gato gigantesco. A imagem era de uma exatidão verdadeiramente maravilhosa. Havia uma corda em tomo do pescoço do animal.
Logo que vi tal aparição — pois não poderia considerar aquilo como sendo outra coisa — , o assombro e terror que se me apoderaram foram extremos. Mas, finalmente, a reflexão veio em meu auxílio. O gato, lembrei-me, fora enforcado num jardim existente junto à casa. Aos gritos de alarma, o jardim fora imediatamente invadido pela multidão. Alguém deve ter retirado o animal da árvore, lançando-o, através de uma janela aberta, para dentro do meu quarto. Isso foi feito, provavelmente, com a intenção de despertar-me. A queda das outras paredes havia comprimido a vítima de minha crueldade no gesso recentemente colocado sobre a parede que permanecera de pé. A cal do muro, com as chamas e o amoníaco desprendido da carcaça, produzira a imagem tal qual eu agora a via.
Embora isso satisfizesse prontamente minha razão, não conseguia fazer o mesmo, de maneira completa, com minha consciência, pois o surpreendente fato que acabo de descrever não deixou de causar-me, apesar de tudo, profunda impressão. Durante meses, não pude livrar-me do fantasma do gato e, nesse espaço de tempo, nasceu em meu espírito uma espécie de sentimento que parecia remorso, embora não o fosse. Cheguei, mesmo, a lamentar a perda do animal e a procurar, nos sórdidos lugares que então freqüentava, outro bichano da mesma espécie e de aparência semelhante que pudesse substituí-lo.
Uma noite, em que me achava sentado, meio aturdido, num antro mais do que infame, tive a atenção despertada, subitamente, por um objeto negro que jazia no alto de um dos enormes barris, de genebra ou rum, que constituíam quase que o único mobiliário do recinto. Fazia já alguns minutos que olhava fixamente o alto do barril, e o que então me surpreendeu foi não ter visto antes o que havia sobre o mesmo. Aproximei-me e toquei-o com a mão. Era um gato preto, enorme — tão grande quanto Pluto — e que, sob todos os aspectos, salvo um, se assemelhava a ele. Pluto não tinha um único pêlo branco em todo o corpo — e o bichano que ali estava possuía uma mancha larga e branca, embora de forma indefinida, a cobrir-lhe quase toda a região do peito.
Ao acariciar-lhe o dorso, ergueu-se imediatamente, ronronando com força e esfregando-se em minha mão, como se a minha atenção lhe causasse prazer. Era, pois, o animal que eu procurava. Apressei-me em propor ao dono a sua aquisição, mas este não manifestou interesse algum pelo felino. Não o conhecia; jamais o vira antes.
Continuei a acariciá-lo e, quando me dispunha a voltar para casa, o animal demonstrou disposição de acompanhar-me. Permiti que o fizesse — detendo-me, de vez em quando, no caminho, para acariciá-lo. Ao chegar, sentiu-se imediatamente à vontade, como se pertencesse a casa, tomando-se, logo, um dos bichanos preferidos de minha mulher.
De minha parte, passei a sentir logo aversão por ele. Acontecia, pois, justamente o contrário do que eu esperava. Mas a verdade é que - não sei como nem por quê — seu evidente amor por mim me desgostava e aborrecia. Lentamente, tais sentimentos de desgosto e fastio se converteram no mais amargo ódio. Evitava o animal. Uma sensação de vergonha, bem como a lembrança da crueldade que praticara, impediam-me de maltratá-lo fisicamente. Durante algumas semanas, não lhe bati nem pratiquei contra ele qualquer violência; mas, aos poucos - muito gradativamente — , passei a sentir por ele inenarrável horror, fugindo, em silêncio, de sua odiosa presença, como se fugisse de uma peste.
Sem dúvida, o que aumentou o meu horror pelo animal foi a descoberta, na manhã do dia seguinte ao que o levei para casa, que, como Pluto, também havia sido privado de um dos olhos. Tal circunstância, porém, apenas contribuiu para que minha mulher sentisse por ele maior carinho, pois, como já disse, era dotada, em alto grau, dessa ternura de sentimentos que constituíra, em outros tempos, um de meus traços principais, bem como fonte de muitos de meus prazeres mais simples e puros.
No entanto, a preferência que o animal demonstrava pela minha pessoa parecia aumentar em razão direta da aversão que sentia por ele. Seguia-me os passos com uma pertinácia que dificilmente poderia fazer com que o leitor compreendesse. Sempre que me sentava, enrodilhava-se embaixo de minha cadeira, ou me saltava ao colo, cobrindo-me com suas odiosas carícias. Se me levantava para andar, metia-se-me entre as pemas e quase me derrubava, ou então, cravando suas longas e afiadas garras em minha roupa, subia por ela até o meu peito. Nessas ocasiões, embora tivesse ímpetos de matá-lo de um golpe, abstinha-me de fazê-lo devido, em parte, à lembrança de meu crime anterior, mas, sobretudo — apresso-me a confessá-lo — , pelo pavor extremo que o animal me despertava.
Esse pavor não era exatamente um pavor de mal físico e, contudo, não saberia defini-lo de outra maneira. Quase me envergonha confessar — sim, mesmo nesta cela de criminoso — , quase me envergonha confessar que o terror e o pânico que o animal me inspirava eram aumentados por uma das mais puras fantasias que se possa imaginar. Minha mulher, mais de uma vez, me chamara a atenção para o aspecto da mancha branca a que já me referi, e que constituía a única diferença visível entre aquele estranho animal e o outro, que eu enforcara. O leitor, decerto, se lembrará de que aquele sinal, embora grande, tinha, a princípio, uma forma bastante indefinida. Mas, lentamente, de maneira quase imperceptível — que a minha imaginação, durante muito tempo, lutou por rejeitar como fantasiosa —, adquirira, por fim, uma nitidez rigorosa de contornos. Era, agora, a imagem de um objeto cuja menção me faz tremer... E, sobretudo por isso, eu o encarava como a um monstro de horror e repugnância, do qual eu, se tivesse coragem, me teria livrado. Era agora, confesso, a imagem de uma coisa odiosa, abominável: a imagem da forca! Oh, lúgubre e terrível máquina de horror e de crime, de agonia e de morte!
Na verdade, naquele momento eu era um miserável — um ser que ia além da própria miséria da humanidade. Era uma besta-fera, cujo irmão fora por mim desdenhosamente destruído... uma besta-fera que se engendrara em mim, homem feito à imagem do Deus Altíssimo. Oh, grande e insuportável infortúnio! Ai de mim! Nem de dia, nem de noite, conheceria jamais a bênção do descanso! Durante o dia, o animal não me deixava a sós um único momento; e, à noite, despertava de hora em hora, tomado do indescritível terror de sentir o hálito quente da coisa sobre o meu rosto, e o seu enorme peso — encarnação de um pesadelo que não podia afastar de mim — pousado eternamente sobre o meu coração!
Sob a pressão de tais tormentos, sucumbiu o pouco que restava em mim de bom. Pensamentos maus converteram-se em meus únicos companheiros — os mais sombrios e os mais perversos dos pensamentos. Minha rabugice habitual se transformou em ódio por todas as coisas e por toda a humanidade — e enquanto eu, agora, me entregava cegamente a súbitos, freqüentes e irreprimíveis acessos de cólera, minha mulher - pobre dela! - não se queixava nunca convertendo-se na mais paciente e sofredora das vítimas.
Um dia, acompanhou-me, para ajudar-me numa das tarefas domésticas, até o porão do velho edifício em que nossa pobreza nos obrigava a morar, O gato seguiu-nos e, quase fazendo-me rolar escada abaixo, me exasperou a ponto de perder o juízo. Apanhando uma machadinha e esquecendo o terror pueril que até então contivera minha mão, dirigi ao animal um golpe que teria sido mortal, se atingisse o alvo. Mas minha mulher segurou-me o braço, detendo o golpe. Tomado, então, de fúria demoníaca, livrei o braço do obstáculo que o detinha e cravei-lhe a machadinha no cérebro. Minha mulher caiu morta instantaneamente, sem lançar um gemido.
Realizado o terrível assassínio, procurei, movido por súbita resolução, esconder o corpo. Sabia que não poderia retirá-lo da casa, nem de dia nem de noite, sem correr o risco de ser visto pelos vizinhos.
Ocorreram-me vários planos. Pensei, por um instante, em cortar o corpo em pequenos pedaços e destruí-los por meio do fogo. Resolvi, depois, cavar uma fossa no chão da adega. Em seguida, pensei em atirá-lo ao poço do quintal. Mudei de idéia e decidi metê-lo num caixote, como se fosse uma mercadoria, na forma habitual, fazendo com que um carregador o retirasse da casa. Finalmente, tive uma idéia que me pareceu muito mais prática: resolvi emparedá-lo na adega, como faziam os monges da Idade Média com as suas vítimas.
Aquela adega se prestava muito bem para tal propósito. As paredes não haviam sido construídas com muito cuidado e, pouco antes, haviam sido cobertas, em toda a sua extensão, com um reboco que a umidade impedira de endurecer. Ademais, havia uma saliência numa das paredes, produzida por alguma chaminé ou lareira, que fora tapada para que se assemelhasse ao resto da adega. Não duvidei de que poderia facilmente retirar os tijolos naquele lugar, introduzir o corpo e recolocá-los do mesmo modo, sem que nenhum olhar pudesse descobrir nada que despertasse suspeita.
E não me enganei em meus cálculos. Por meio de uma alavanca, desloquei facilmente os tijolos e tendo depositado o corpo, com cuidado, de encontro à parede interior. Segurei-o nessa posição, até poder recolocar, sem grande esforço, os tijolos em seu lugar, tal como estavam anteriormente. Arranjei cimento, cal e areia e, com toda a precaução possível, preparei uma argamassa que não se podia distinguir da anterior, cobrindo com ela, escrupulosamente, a nova parede. Ao terminar, senti-me satisfeito, pois tudo correra bem. A parede não apresentava o menor sinal de ter sido rebocada. Limpei o chão com o maior cuidado e, lançando o olhar em tomo, disse, de mim para comigo: "Pelo menos aqui, o meu trabalho não foi em vão".
O passo seguinte foi procurar o animal que havia sido a causa de tão grande desgraça, pois resolvera, finalmente, matá-lo. Se, naquele momento, tivesse podido encontrá-lo, não haveria dúvida quanto à sua sorte: mas parece que o esperto animal se alarmara ante a violência de minha cólera, e procurava não aparecer diante de mim enquanto me encontrasse naquele estado de espírito. Impossível descrever ou imaginar o profundo e abençoado alívio que me causava a ausência de tão detestável felino. Não apareceu também durante a noite — e, assim, pela primeira vez, desde sua entrada em casa, consegui dormir tranqüila e profundamente. Sim, dormi mesmo com o peso daquele assassínio sobre a minha alma.
Transcorreram o segundo e o terceiro dia — e o meu algoz não apareceu. Pude respirar, novamente, como homem livre. O monstro, aterrorizado fugira para sempre de casa. Não tomaria a vê-lo! Minha felicidade era infinita! A culpa de minha tenebrosa ação pouco me inquietava. Foram feitas algumas investigações, mas respondi prontamente a todas as perguntas. Procedeu-se, também, a uma vistoria em minha casa, mas, naturalmente, nada podia ser descoberto. Eu considerava já como coisa certa a minha felicidade futura.
No quarto dia após o assassinato, uma caravana policial chegou, inesperadamente, a casa, e realizou, de novo, rigorosa investigação. Seguro, no entanto, de que ninguém descobriria jamais o lugar em que eu ocultara o cadáver, não experimentei a menor perturbação. Os policiais pediram-me que os acompanhasse em sua busca. Não deixaram de esquadrinhar um canto sequer da casa. Por fim, pela terceira ou quarta vez, desceram novamente ao porão. Não me alterei o mínimo que fosse. Meu coração batia calmamente, como o de um inocente. Andei por todo o porão, de ponta a ponta. Com os braços cruzados sobre o peito, caminhava, calmamente, de um lado para outro. A polícia estava inteiramente satisfeita e preparava-se para sair. O júbilo que me inundava o coração era forte demais para que pudesse contê-lo. Ardia de desejo de dizer uma palavra, uma única palavra, à guisa de triunfo, e também para tomar duplamente evidente a minha inocência.
— Senhores — disse, por fim, quando os policiais já subiam a escada — , é para mim motivo de grande satisfação haver desfeito qualquer suspeita. Desejo a todos os senhores ótima saúde e um pouco mais de cortesia. Diga-se de passagem, senhores, que esta é uma casa muito bem construída... (Quase não sabia o que dizia, em meu insopitável desejo de falar com naturalidade.) Poderia, mesmo, dizer que é uma casa excelentemente construída. Estas paredes — os senhores já se vão? — , estas paredes são de grande solidez.
Nessa altura, movido por pura e frenética fanfarronada, bati com força, com a bengala que tinha na mão, justamente na parte da parede atrás da qual se achava o corpo da esposa de meu coração.
Que Deus me guarde e livre das garras de Satanás! Mal o eco das batidas mergulhou no silêncio, uma voz me respondeu do fundo da tumba, primeiro com um choro entrecortado e abafado, como os soluços de uma criança; depois, de repente, com um grito prolongado, estridente, contínuo, completamente anormal e inumano. Um uivo, um grito agudo, metade de horror, metade de triunfo, como somente poderia ter surgido do inferno, da garganta dos condenados, em sua agonia, e dos demônios exultantes com a sua condenação.
Quanto aos meus pensamentos, é loucura falar. Sentindo-me desfalecer, cambaleei até à parede oposta. Durante um instante, o grupo de policiais deteve-se na escada, imobilizado pelo terror. Decorrido um momento, doze braços vigorosos atacaram a parede, que caiu por terra. O cadáver, já em adiantado estado de decomposição, e coberto de sangue coagulado, apareceu, ereto, aos olhos dos presentes.
Sobre sua cabeça, com a boca vermelha dilatada e o único olho chamejante, achava-se pousado o animal odioso, cuja astúcia me levou ao assassínio e cuja voz reveladora me entregava ao carrasco.
Eu havia emparedado o monstro dentro da tumba!
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